a cicatriz indelével

tomei os vultos por tatuagens
enquanto nada mais se movia
além de mim; na plataforma
o cansaço dos homens
não é superior ao do metal
e os trens nem tanto vêm como cedem
ao passado de todas as estações, de todos os tempos
ao medo de se tornarem trilhos na pele de outro suicida.

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relato de um sonho comum

Há um milharal que se estende ao infinito, e um labirinto dentro do milharal. Mas o milharal não é um milharal. Não. O milharal é algo mais, e se nós o entendemos por milharal é porque em algum ponto erramos ou porque em algum ponto há um erro. Entretanto não deve-se desistir do labirinto, pois o labirinto é o que é e nós somos o que somos mesmo que não saibamos disso, ao menos não agora, não nesse momento mas em outro que já existe, existiu e existirá para sempre dentro de nós, não como um tempo ou espaço propriamente dito mas como o nosso próprio começo e o nosso próprio fim, como a nossa própria ignorância, cultivada como a defesa última de um castelo, a defesa além dos fossos e das muralhas, das torres e dos soldados, das flechas e das lâminas, dos sonhos que se perderam em um canto qualquer e chamam a atenção dos bárbaros embriagados que assomam pelos corredores e que não sem tardar e lágrimas descobrem-se cercados de espigas.

motorista terminológico

Não minto, mas hoje entrei num carro e já de entrada o motorista nada falou. Ele nada falou ali e nada falou por toda a viagem, e a cada nada falar dele urgia o dever de vestir o nada com minha linguagem, como se eu não fosse esse alfaiate de silêncios, como se o calar desse homem resultasse num buraco negro cuja sucção absorvesse meu ânimo vocabular. No destino, em nosso destino, necessitei de força ao abrir a porta, e com ela aberta senti o ar entrar num levante. Sobre a calçada, quis me despedir, mas nada mais tinha para dizer.

a tua ligação

eu nomeio a tarde com as minhas lembranças
e nenhuma tua me é verdadeira
ou digna de conceber um vocábulo ou
cor, outra linguagem de surdos e mudos
enquanto na varanda a tudo precede o silêncio
de cantos noturnos, do nosso movimento interior
que como tu não se define em nomes, mas em castigos.