minha frugal divindade

peco só de me ver em ti
acima de ti
entrego minha imaginação
a quem me quer sem conhecer
o todo, o eterno e infinito todo
a quem me quer em partes
temendo os muitos obstáculos
a um desejo que é, e só é, se em mim.

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quem com ferro não fere

a fornalha na qual assam os mortos
é feita de outra morte, e
a fôrma onde te decoram com fogo
com fogo e condenações
servirá a teus filhos
e aos filhos de teus filhos, também
e serão os ossos incinerados,
argamassa de túmulos e tumbas
argamassa dessa história
negada por quem só tem e terá culpa.

sobre o meu agir

domei feras que atribuí às ilusões de andarilhos
mas não tive culhões de sonhá-las eu mesmo
dedicado estava em gozar o martírio de outros
enquanto pássaros incendiados acusavam o céu
e concebiam vultosos ninhos de pólvora em meu crânio,
decomposto e seco e trespassado por augúrios de autocondenação.

à involução

me falaram de um ponto no qual
de tanto se afastar
torna-se o homem o único meio
e o único fim
torna-se a solidão dos concentrados,
dimensões e universos acessórios,
com o direito de neles renegar
todo o sofrimento e toda a dor
como se tudo fosse infantil autoimposição,
a brincadeira de quem se obriga a esquecer
com o intuito consolador de ter do que reclamar.

Wallace Stevens

No extremo sul o sol do outono passa
Como Walt Whitman andando por uma praia vermelha.
Ele canta e entoa as coisas que são parte dele,
Os mundos que foram e serão, morte e dia.
Nada é final, entoa. Ninguém verá o fim.
Sua barba é de fogo e seu cajado uma labareda.

matriosca

tanta luz contida, na caixa do boneco
tanto breu, e mesmo assim o graduar
entre claro e escuro
deixa entrever a corda na qual
enforcou-se o títere, ao vislumbrar
logo antes, a corda na qual se enforcaria.

egoísmo par

todo dia a decadência
a partir do indefinível
princípio
o hábito de se desgastar, a partir de dentro
tido como natural à nossa carne
e à nossa taciturna sombra,
não seria prova, ou constituição
de quem só advoga em causa própria?