eles dobram por ti

o sonho de se ver
se vendo
de ser visto
se vendo
segue a sina de sinos
que, no alto campanário
entre torres de cimento,
e sujeitos à indiferença da altura,
não anunciam senão o próprio fim.

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vi-os de mãos dadas

enquanto eles eram felizes, eu estava lá
mas não partilhei, de toda a alegria
sequer olhei-os nos olhos
ou abracei-os com retida euforia
cansado estava de tanto viver, e saber
de tanto ver-me, vendo
consciente de muito como um único deus
a caminho da soberania
e ainda assim curvado ante sua própria inveja.

o cadafalso começa ou termina no céu?

Sabe o homem figurar numa peça, sabe o homem a ilusão de sua realidade; sabe disso, sabe muito, e só ignora o como transcendê-la. Tudo é isto, falso, tudo é tão passageiro. A carne, as estrelas, o eterno e o infinito têm o mesmo destino, o mesmo nascimento. Somos pássaros em gaiolas, gaiolas em casas, casas em lugares; somos hierarquia. E mais, criamos mundos inferiores, dimensões outras, entregamos a um terceiro nossas esperanças e respostas; erra quem espera do êxtase um engano infalível: o reflexo está além do espelho, e não o contrário. O reflexo existe por si só. 

hipérbole do dizer

existe sim essa possibilidade
de se saber o curso
do acaso, pois entre nós
ele já está, e sempre esteve
muito como equívoco
ou erro, como a brincadeira
de condenados à forca
que gritam vogais
enquanto giram em balanços
cuja trajetória nunca é, será ou foi a mesma.