quero que me entendam as crianças, e não os adultos

Se as nuvens fossem lembradas pelas representações que imaginamos nelas, então nunca existiriam tempestades.

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para isso há um fim

estou entre quem não te deixar sair de si mesmo;
enfrentará tua fúria fitando o nada,
e dos rochedos amontoados
com o teu sangue e o teu suor
verterão as ossadas de inimigos ocasionais
e ilegítimos, assassinados conforme tu te condenavas.

amor como ódio

te odiei sorrindo, e tu me odiaste também
mas teu ódio não era amor, era fome
a fome dos cães e demônios,
das crianças com inanição,
restrita ao sangue, e à saliva
ou aos meus ossos descarnados
como oferendas embalados em carniça
e destinados ao deuses situados em tuas entranhas.

Jorge Luis Borges

Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressureições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro
a minha álgebra e minha chave
a meu espelho.
Logo saberei quem sou.

o dicionário dos condenados

Nessas horas há sempre aquela sensação de que perderemos alguém para sempre. O fim do amor é algo muito mais definitivo do que a morte. Aquela sensação de erro, de seguir num erro, de estar à mercê de um erro contínuo, eterno. Pois não há termo que descreva essa marca sentimental, nem nada que a absolva, que a extinga, e como a dor fantasma de um membro amputado sentimos os amores passados e o sentimento tão maior é quanto menos temos força ou vontade para novas relações. A tal penitente reviver sinto-me condenado.

ao ferreiro, com amor

muito acontecia longe dali, assim disse o fugitivo
e falou de masmorras como se falasse de amor;
mãos feridas, cortes inerentes à ferrugem
hematomas não mais vermelhos, ou violetas
e falou de corredores como se falasse de olhos.
tudo vinha-lhe à língua, fendida em duas
a remar entre oceanos de saliva negra
e a ele o retardatário ouvia com taciturna dor.
mas e, meu amigo, como ajudá-lo, indagou
assim do silêncio erigir-se além dos túmulos;
ora, disse o fugitivo, e escorou-se numa lápide
tomando de mim o meu mais certo futuro,
e ao outro ofereceu a lâmina da guilhotina.
longa, cintilava o corte e cintilava o gume
asa cujo voar referia-se à liberdade indesejada,
e com o aço em mãos o retardatário interrogou
acerca do fado à arma destinado;
ora, disse o fugitivo, a ele ensine um fio de lição
e riu-se um e sorriu o outro, enquanto no céu
escarnecia deles o nebuloso vulto da lua.

o anti-método de Tremaux

Quando criança tinha eu o costume de solucionar os labirintos publicados como passatempo nas revistas de histórias em quadrinhos. Não afeito aos erros definitivos, usava um lápis ou lapiseira, e meus riscos eram hesitantes e fracos e – atormentados pela faca da mão – esvaneciam feito os rastros de fumaça arranhados no céu pelo motor dos aviões a jato. Minha solução ao problema do labirinto, todavia, era outro, em oposição ao das entradas e partidas: somente identificava, percorria e traçava os becos sem saída, e até hoje não há um labirinto do qual eu tenha escapado.

Jorge Luis Borges

Ao fim de cinquenta gerações
(Tais abismos a todos nós apresenta o tempo)
Volto na margem ulterior de um grande rio
À qual não chegaram os dragões do viking
Às ásperas e laboriosas palavras
Que, com uma boca que se fez pó,
Usei nos dias de Nortúmbria e de Mércia,
Antes de ser Haslam ou Borges
(..)
Louvada seja a infinita
Urdidura dos efeitos e das causas
Que antes de mostrar-me o espelho
No qual não verei ninguém ou verei outro
Concede-me esta pura contemplação
De uma linguagem do alvorecer.

o derradeiro exaurir

falam de, assim como foi, assim virá
de como o eterno reiterar é maldito
restrito aos sofrimentos e alegrias
desta má condenação, e só
e desconsideram a outra sentença
absoluta, relativa à exaustão
de nosso irrestrito e divino imaginar;
afinal todo potencial é certo
e não mera conjectura ou delírio
mas a ele evitamos de nos entregar
guarnecidos que somos, e seremos
pela exatidão das somas
ou pelo mau uso de um bom dia,
por folhas de papel, ou de árvores
e jardins floridos no qual uma fonte nada representa.