áxis

o contorcionista do circo
não tem outro refúgio
senão as juntas inflexíveis
de seus inumeráveis defeitos,
tendo estes não outro desígnio senão
o conceber de eixos dignos ao seu desdobrar.

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Maomé e A Montanha

Quando a montanha veio a Maomé ela veio como avalanche e cobriu cidades e vidas, e muitos anos depois acharam esses homens e mulheres como estavam, se dormindo ou se declarando, e era como se jamais houvessem vivido ou como se nada daquilo significasse além do sofrimento; era grande, a montanha, e Moisés era pequeno, e quando ela passou e a tudo destruiu era como se nenhum julgamento existisse ou como se fôssemos os mesmos, como se para a terra e o mar e o tempo não houvesse distinção era a montanha e o fim de nós.

a torre segue o horizonte

a degolada e o enforcado andam de mãos dadas
dedos entrelaçados, mas não os fios da corda
como dormem, quando o sangue tem sabor
de cera, e os corvos acomodam olhos em ninhos
feitos de cílios, quando o inverno só chega
para os miseráveis; como, indagam os reis
e chutam seus anões cobertos de feridas e sal.

pés de pecadores

(…) inclusive, em uma das remotas ilhas que compõem o Arquipélago da Melanésia, grupos distintos de nativos acreditam que quando Kambel (o Deus primordial) criou o mundo (graun), Ele deu mãos aos homens para que assim pudessem pecar, e deu pés aos homens para que assim eles pudessem pagar pelos seus pecados. Uma das maiores infrações em sua cultura é engatinhar, pois engatinhar é corromper o solo sagrado com o que há de mais sujo no corpo humano, sendo não raro os ocidentais que se assustam ao ver crianças caminhando mal de serem apresentadas ao chão. Os sacerdotes têm por hábito amputar os punhos e muitos morrem nesse procedimento; os que sobrevivem obtêm o status de santos, e não é por estarem sem mãos que não descobrem maneiras de pecar com os pés.

Silly, Paul (1998). An Introduction to the Anthropology of Melanesia. New York: Cambridge University Press. Pag 38.

dois óculos

Desde que uma das hastes de meu óculos quebrou passei a ver o mundo na diagonal, como um quadro que encontra-se em desalinho tanto com a sua imagem quanto com os limites da parede. É um mundo que me escorre pelos cantos, que me fascina em incômodos; e, se não é tudo isso, ao menos é um óculos partido – o que basta por agora.

o sempre real

Nada mais enganoso do que falar de verossimilhança, pois falar dela é pressupor relações seguras de causas e consequências, ações e reações, de uma verdade tendenciosa. Pois saibam, a verossimilhança não existe. Somente existe a mentira, e a ela devemos ser gratos.